Por Luiz Carlos dos Santos
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Texto Base: Gl. 5:16 e 17 - “Digo, porém: andai no espírito e jamais satisfazeis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o espírito, e o espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer.”
1. Introdução.
O engano para ser engano é obrigatoriamente aquilo que mais se aproxima da verdade aos olhos dos que ainda não nasceram de novo. Se o engano se apresentasse como tal, jamais obteria êxito em sua destinação funesta. Os regenerados não caem no engano, porque o Espírito de Cristo não o permite. Não é uma questão de ser melhor ou mais espiritual, mas é uma questão de receber graça e misericórdia para viver da fé. O regenerado não depende mais da lei do esforço próprio, pois Cristo é a sua vida cf. Cl. 3:4 – “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.”
Ainda que seja Deus em sua soberania quem decide a quem é dada a graça da eleição para crer, o “deus deste século” sente enorme prazer em manter os homens sob o engano acerca da verdade cf. II Co. 4:4 – “...nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.” Evidentemente que o inimigo mantém a cegueira dos incrédulos, porque estes possuem natureza homogênea à dele cf. Jo. 8: 44 – “Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira.” Quando se fala em incrédulos imediatamente nos vem à mente aquelas pessoas que se dizem atéias, os que praticam uma série de coisas erradas, os ladrões, malfeitores, adúlteros, mentirosos, assassinos etc. Todavia, há muitos incrédulos crentes, como também há muitos crentes incrédulos. É notório que os demônios são crédulos e estremecem diante de Deus cf. Tg. 2:19 – “Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem, e estremecem.” De fato só os que crêem e os que sabem quem é o Senhor Deus podem temer, tremer e estremecer diante d’Ele, mesmo sendo demônios.
Quanto aos nascidos de Deus, o inimigo não pode tocar cf. I Jo. 5:18 – “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; antes é guardado aquele que nasceu de Deus, e o maligno não lhe toca.” É importante ressaltar que o maligno não toca o nascido do alto, por mérito seu, mas porque a vida que nele habita não é mais a sua, mas é a vida de Cristo que não pode ser tocada pelo inimigo. Há muitos religiosos que atribuem à vitória, o sucesso e a espiritualidade à sua suposta obediência, lealdade e fidelidade à igreja, a doutrina e aos valores morais. Entretanto, não é isso que a Palavra de Deus ensina, pois a espiritualidade é operada e operacionalizada em Cristo cf. Jo. 15:5 – “Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” Isto é dependência total e irrestrita “da” e “na” vida de Cristo. O erro mais grosseiro que o homem comete é o tomar para si qualquer merecimento e justiça, pois a Palavra de Deus ensina que em nós não há bem algum cf. Rm. 7:18 – “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está.” Só Deus detém o poder de querer e de efetuar qualquer coisa em todo o Universo, posto que Soberano e Absoluto.
É igualmente fundamental esclarecermos que nestes dias, muitos pregadores estão usando uma terminologia aparentemente bíblica, porém sem o discernimento do Espírito e, muito menos da Bíblia. Eles confundem a capacidade de fazer exegese com a capacitação dada gratuitamente pelo Espírito Santo de Deus. Estes são aqueles que se aperfeiçoam em decorar textos a fim de utilizá-los em benefício de uma causa puramente humana, mas não em sujeição à vontade de Deus cf. Is. 29:13 – “Por isso o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens, aprendidos de cor.” Aí é o caso de se ressaltar a letra que mata e esquecer-se do espírito que vivifica. Verifica-se, segundo o texto, que é possível viver na suposição de honrar a Deus apenas com palavras e não no espírito. Deter doutrina e profundo conhecimento acerca da Bíblia não é evidência das marcas de Cristo. A primeira evidência da vida de Cristo é a negação de si mesmo diante de Deus e dos homens. É o diminuir-se para que Cristo cresça!
Na medida em que a semente que serve ao Senhor de geração em geração prega a mensagem da cruz, causando náuseas aos legalistas, ritualistas e religiosos de todos os gêneros, estes assumem a forma de joio. Valem-se de uma terminologia teológica, porém sem a postura, o respaldo e a autoridade de Deus. Passam a agir por osmose, isto é, assimilam o linguajar bíblico, mas não recebem a verdade que da Bíblia procede. Acerca deste ponto vamos verificar o texto de Mt. 7: 22 a 23 – “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” Este é um dos texto mais indigestos da Palavra de Deus, se não for visto pelo espírito. As coisas praticadas por estes religiosos do texto parecem corretas aos olhos dos que se guiam pela letra e pelos méritos do homem. Todavia, elas são denominadas de iniqüidades pelo Senhor Jesus, porque foram realizadas fora d’Ele. A palavra grega ‘iniqüidade’ [gr.anomian] do texto original significa sem lei, transgressão, violação da lei ou ilegalidade. Ora, se estas pessoas estavam expulsando demônios, profetizando e fazendo muitos milagres em nome de Jesus, porque o Senhor nunca os havia conhecido? Se eles se dirigem a Ele como Senhor, porque Ele os manda apartarem-se d’Ele? Porque tais atos de bondade foram feitos com base na ilegalidade adquirida na ‘árvore do conhecimento do bem e do mal’ e não na destruição do corpo do pecado na cruz por meio da inclusão na morte de Cristo cf. Rm. 6: 6 e 7. Este tem sido um dos mais terríveis enganos entre religiosos de todas as matizes: pensam que tudo o que é bom, correto e íntegro se origina obrigatoriamente em Deus. Não o é, pois a partir do momento que o homem não experimentou a morte por inclusão na morte de Cristo, qualquer ato, bom ou ruim, que dele proceda tem o mesmo peso perante os olhos de Deus. É ato desprovido do cumprimento da lei que exige a morte como salário do pecado. Esta lei só pôde ser satisfeita plenamente na morte de Cristo para que qualquer ato feito pelo homem nascido do alto possa ser homologado por Deus em Cristo. Este é o sentido pleno e perfeito de justificação e de imputação da justiça de Deus ao homem decaído. Por isso, é condição essencial a inclusão na morte em Cristo, pois ela não é apenas substitutiva, mas é também e principalmente inclusiva e imputativa.
O que conta não é o que as religiões ensinam, mas o que a Palavra de Deus diz cf. Jr. 23:26 – “Até quando se achará isso no coração dos profetas que profetizam mentiras, e que profetizam do engano do seu próprio coração?” Não é a toa que a Palavra de Deus afirma que o coração é mais enganoso do todas as coisa cf. Jr. 9:17 – “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?”. Estes religiosos que se alimentam do engano das suas próprias almas, quando conscientizados acerca da verdade e permanecem na mentira, tornam-se perversos também. Eles pervertem a verdade de Deus em mentira engendrada em suas almas manchadas do pecado que não foi destruído na cruz.
No texto de Mt. 7:23b, quando Jesus diz: ‘Então lhes direi abertamente’ o texto grego diz: ‘homologeso’ [gr. homologeso], isto é, concordar com a declaração de alguém. Isto implica que Jesus concordará com aqueles religiosos praticantes de “boas obras” apenas no sentido em que estavam praticando todo tempo iniqüidades, pois eram atos fora do Espírito de Cristo. Eram frutos do esforço barganhista do homem decaído e não dos regenerados pela graça e misericórdia de Deus. Esta verdade pode ser estendida a todo e qualquer ato de retidão, bondade, justiça e integridade praticado por pessoas em nome de Jesus, mas não feitos EM Cristo, não realizados EM Deus. O ensino puro e santo diz que as boas obras acompanharão os nascidos de Deus e não que os mesmos as acompanharão. Este mesmo ensino diz que as boas obras foram preparadas por Deus de antemão para que os seus santos andassem nelas. Isto implica que elas estão a nossa frente como uma estrada a ser palmilhada pelos que são de Deus e não como uma escada a ser galgada a fim de agradar a Deus em troca da salvação e das bênçãos.
Com estas meditações e considerações queremos mostrar que não basta declarar as palavras da Bíblia em púlpitos vazios da cruz. Não basta apenas repetir textos aprendidos de cor, porém fora do Espírito de Cristo que vivifica para a eternidade. Não basta reproduzir os métodos aprendidos em seminários, sem a definição da Palavra de Deus em Cristo. Não basta valer-se de experiências alheias, sem ter sido incluído na morte de Cristo. Não basta ter fé na fé. Não basta querer honrar o nome de Deus, fora da ressurreição juntamente com Cristo. Alguém só ressuscita juntamente com Cristo, se com Ele morrer na mesma cruz. Qualquer que ousar falar sobre novo nascimento, morte na cruz, regeneração apenas pela torpe ganância de enganar os membros desta ou daquela igreja, não passa de iniqüidade ou ilegalidade aos olhos do Senhor Jesus. Será excluído pelo ‘NUNCA OS CONHECI’ e pelo ‘APARTAI-VOS DE MIM’. Algumas destas igrejas-empresas estão tão cheias de obras e de doutrinas que o Senhor Jesus não encontra lugar nelas. Fica do lado de fora batendo à porta cf. Ap. 3:20. Os seus líderes são muito importantes para deixar um simples carpinteiro da Galiléia ocupar lugar nestas igrejas humanistas e eticamente corretas. Estes se esquecem que o Senhor veio ao mundo para salvar apenas o que se havia perdido.
A palavra de Deus não pode apenas ser declarada sem a postura e a autoridade de Cristo, pois a mesma só é homologada por Ele mediante a cruz. Existe uma enorme distância espiritual entre declarar e confessar a Palavra de Deus em sujeição. Esta glória, só os nascidos do alto podem experimentar por misericórdia e graça do próprio Deus. Tanto é verdade que no mesmo texto de Mt. 7:23c, quando Jesus diz: ‘vós que praticais a iniqüidade’, a palavra do texto grego original é ‘ergazomenoi’ [gr. ergazomenoi], isto é, esforçar, trabalhar, negociar, operar, produzir, praticar, fazer, trabalhar por, viver de. O que Deus quer não é que você saia por aí realizando coisas fora de Cristo, mas que Cristo possa viver em você e realizar a obra do Pai e, consequentemente, as boas obras. O maior sinal de que o homem ainda não experimentou a morte do seu eu, isto é, da sua natureza incrédula e pecaminosa é a enorme necessidade de fazer coisas para agradar a Deus. Muitos atos de bondade são feitos para exigir diante de Deus os benefícios espirituais. Muitas atitudes bondosas são realizadas com base no senso de justiça antropológica, jurídica e sociológica e não no senso de justiça perfeita de Deus em Cristo. Outro sinal evidente de ausência do Espírito de Cristo é a busca numérica de resultados. Estes obreiros da religião desconhecem que Deus nunca utilizou as maiorias, mas sempre foi vitorioso com as minorias justamente para ficar claro que Ele é suficiente a Si mesmo e a toda criação.
Os nascidos de Deus não são néscios, mas não se atrevem a realizar a obra de Deus por conta própria, pois sabem que o final delas é a rejeição por parte d’Ele. Deus não dá a Sua Glória a outrem e, muito menos, compartilha de um espírito morto em delitos e pecados. Sabemos que espírito não deixa de existir, mas do ponto de vista de Deus e da Sua Santidade o espírito do homem decaído está morto, isto é, separado da vida do Senhor Deus em Cristo Jesus Senhor Nosso.
2. Andar na Alma.
II Co. 10: 3 a 5 – “Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.” Não se pode confundir o andar na carne fisicamente com o andar na carne almaticamente. O que o verso 3 está dizendo é que ‘andando com a carne, mas não servindo na carne’. A palavra grega para carne neste texto é originada de ‘sarkikós’ [gr. sarkikoV], ou seja, governo da natureza humana, sem o Espírito de Deus. Portanto, possui sentido ético e moral diante de Deus. É a expressão da carnalidade, isto é, dos apetites humanos fora da vontade ou do governo de Deus em Cristo. A Palavra de Deus não espiritualiza o que não é espiritualizável, mas também não carnaliza o que não é carnalizável. Todo o homem religioso ou não, possui duas militâncias: na carne e no espírito cf.Gl. 5:17 – “Porque a carne luta contra o espírito, e o espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis.”
O apóstolo Paulo utiliza, além da palavra acima, uma outra ‘sarkinós’ [gr. sarkinoV] cujo significado é basicamente o mesmo. Porém alguns intérpretes pretendem dar a ela uma significação mais material e menos ética e moral. O fato é que ambas indicam um comportamento em aparteísmo à natureza de Deus em Cristo independentemente de ser moral, ético ou animal. Pois Deus é Espírito e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. Não há comunhão entre a carne e o espírito porque possuem naturezas opostas cf. Gl. 5 citado anteriormente. Ressalta-se que o espírito no texto é o do homem, pois se fosse o de Deus a carne não teria a menor chance.
Quando somos guiados pela natureza carnal, isto é, pela alma influenciada pela carne, qualquer sofisma (1) pode nos levar cativos ao falso e ao enganoso. A alma é a sede das volições, sensações, decisões e emoções, porém ela pode estar sob a influência da carne ou do espírito. No primeiro caso, somos contados entre os que praticam iniqüidades, isto é, ilegalidades que nos conduzem à perdição, posto que fora de Cristo. No segundo caso somos conduzidos pelo Espírito de Cristo, porque, neste caso, houve vivificação do nosso espírito por meio da justificação n’Ele.
A alma é a inteireza da sensibilidade e da razão humana sem o selo do Espírito Santo, isto é, um misto de corpo material e sensorialidade à parte da natureza de Deus. Por isto é dada ao pecado e oposta a Deus por natureza e não apenas por atos e atitudes pecaminosos. Muitos religiosos imaginam que o pecado é o que o homem faz de mal, entretanto, o pecado é muito mais do que isto. É o que somos originalmente e essencialmente. O que fazemos de mal ou de bem fora de Cristo são igualmente atos pecaminosos, porque feitos na iniqüidade, isto é, sem a chancela de Cristo. Isto é o mesmo que qualquer cidadão assinar uma Medida Provisória no lugar do Presidente da República. Não tem validade e valor legal.
A alma domina o inconsciente do homem como um fator de motivação forte e duvidosa, porque é guiada pela carnalidade, e, esta é totalmente contrária à natureza de Deus cf. Gl. 5:17 – “Porque a carne luta contra o espírito, e o espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis.” Não é assim no nascido do alto, a vida de Cristo é luz e entendimento do seu espírito, conduzindo a sua alma dentro da vontade de Deus.
O que acontece aos que ainda possuem vida essencialmente almática é que vivem migrando de um estilo de vida da alma para outro. São derrotados, porque a vida da alma é norteada pelas imagens falsas acerca da verdade e pelo prumo do medo que é resultante da incredulidade na Palavra de Deus. Os religiosos que são guiados pela ilegalidade, isto é, pela iniqüidade transformam a Palavra de Deus em uma espécie de lei em suas próprias mentes e, por isso, vivem de derrota em derrota. Eles desconhecem que se tentarmos vencer a guerra contra a carne com armas carnais, perderemos sempre a batalha. Mas, se vivermos dá fé no que afirma a Palavra de Deus, a vida de Cristo nos conduzirá sempre à vitória que vence o mundo, a fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santificados. Eles temem largar os esquemas engendrados por suas doutrinas e se tornarem como barcos à deriva. Não confiam na suficiente e eficiente graça de Deus, pois a vêem apenas como coisas a serem recebidas.
Muitos religiosos identificam como obras da carne apenas: idolatria, lascívia, ódio, inveja, assassinato, adultério, avareza, amargura, roubo, calúnia, conflito, feitiçaria. De fato estas são carnais, porém há muitas boas obras feitas na carne que, aos olhos de DEUS se igualam em natureza e essência àquelas. Elas são praticadas fora de Deus, resultando daquilo que a nossa alma captura e internaliza com base no bem e no mal adquiridos no Éden, após a queda cf. Gn. 3: 22 – “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal.” O pecado passou a todos por meio do primeiro Adão, mas a salvação pela graça mediante a fé nos é dada pelo último Adão, a saber, Cristo. É Ele quem vivifica o nosso espírito separado da natureza de Deus, conferindo-lhe a Sua própria vida. Neste ponto ocorre o novo nascimento ou nascimento do alto.
A falsa identificação da obra de Cristo com a obra da carne se dá porque o religioso não tem discernimento da suficiência e eficiência da inclusão na morte d’Ele. Enfatiza a suficiência da morte de Jesus apenas como algo substitutivo, mas não crêem na eficiência da mesma como algo inclusivo. A doutrina da inclusão é mostrada desde Gênesis até Apocalipse, porém não se pode vê-la apenas pela ótica do intelecto ou por meio das conjecturas teológicas. O homem no pecado prefere ver apenas o que lhe agrada, pois é dotado de muita justiça própria e de muitos méritos. Justiça e mérito são boas coisas, mas se eles prevalecem na vida do homem, substituem a justiça e o mérito de Cristo na cruz. Neste caso não seria necessário Jesus satisfazer o caráter de justiça de Deus na cruz. Estes enganados e enganadores conhecem os textos apenas como pretextos fora dos seus contextos cf. Is. 29:13 – “Por isso o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens, aprendidos de cor.” Todas as vezes que o texto bíblico utiliza a palavra ‘coração’ significa a sede da alma e do espírito e não o órgão que bombeia o sangue pelo corpo. Assim, o que Deus está dizendo é que palavras que não são produzidas pelo espírito vivificado e pela alma controlada pelo Espírito de Cristo, não passam de engano e imagem falsa. Nada têm a ver com a verdade!
Rm. 6:6 a 10 – “Porque, se temos sido unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado. Pois quem está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabendo que, tendo Cristo ressurgido dentre os mortos, já não morre mais; a morte não mais tem domínio sobre ele. Pois quanto a ter morrido, de uma vez por todas morreu para o pecado, mas quanto a viver, vive para Deus.” Eis a resposta de Deus às inclinações da carne cuja vida está na alma decaída. Se temos sido unidos com Ele, Cristo, na semelhança da Sua morte é uma expressão completa em posição e em relação. O que Paulo está dizendo com toda a propriedade de quem fala pelo Espírito Santo é que, semelhantemente como Cristo foi imolado na cruz, também nós o fomos por fé. Cristo não morreu apenas por nós, mas nós fomos incluídos n’Ele em Sua morte. Este fato é o divisor de águas entre verdade e meia-verdade. Os religiosos cujas vidas estão centradas na alma, “aceitam”, como dizem, apenas a morte substitutiva, mas se esquecem de olhar para o outro lado da cruz, onde cada pecador deve estar na inclusão na morte de Cristo. Sabe-se que meia-verdade é mentira e não verdade inteira. Por isso, ou nos rendemos diante da Palavra de Deus, ou estamos brincando nos campos do Senhor como aqueles que apascentam a si mesmos sem o temor cf. Judas 12 no-lo afirma.
Semelhantemente fomos incluídos na ressurreição de Cristo para a vida eterna. Geralmente os religiosos “aceitam” a ressurreição em Cristo, mas como podem ressuscitar se não morreram n’Ele? Este é o princípio contábil das partidas dobradas: a cada crédito corresponde um débito de igual valor. A contabilidade de Deus sempre fecha sem lançar nenhum valor na rubrica dos eventuais. Pois, toda obra perfeita procede do Pai da Luz. E mais, quando pregamos a doutrina da inclusão do pecador na morte de Jesus, não o fazemos para reivindicar qualquer participação ativa no processo, pois até para sermos incluídos, necessitamos da misericórdia e da graça de Deus para nos atrair à cruz cf. Jo. 12:32 – “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim.” Por nós mesmos jamais iríamos para tão grande salvação. Fomos atraídos à salvação e não atraímo-la. Somos tão incompetentes em questões de espiritualidade que, não fosse a misericórdia de Deus ninguém seria salvo.
O texto de Romanos acima é claro como o Sol do meio dia: nosso velho homem foi com Ele crucificado para que fosse desfeito o corpo do nosso pecado. Aqui há três aspectos em um único ato soberano e gracioso de Deus:
- O ‘pecado’ no singular, indicando que é um ato definido e concreto no homem. Trata-se do pecado original, isto é, a incredulidade.
- O ‘velho homem’ que é a nossa natureza pecaminosa, adâmica e morta em delitos e pecados.
- O ‘copo’, isto é, o corpo do pecado que é a nossa carnalidade, sensorialidade ou natureza decaída e tendenciosa para a autonomia apóstata.
Paulo afirma que, quem está morto está justificado do pecado. Tal morte é aquela na cruz com Cristo, pois na contabilidade de Deus, ao levar o Seu Filho Unigênito para morrer na cruz, satisfez-se inteira e plenamente a exigência da lei acerca do pecado: ‘a alma que pecar, esta morrerá’. Deus destruiu o pecado na morte em Cristo, isto é, quando nos atraiu na cruz. Neste texto a palavra pecado está no singular, porque é uma referência à matriz que nos foi transmitida por Adão cf. Rm. 5:12 – “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.” Então vê-se que o pecado é uma condição herdada e não apenas o que praticamos que seja contrário à natureza de Deus. Assim, o pecado é o poder que nos impulsiona aos atos pecaminosos, por isso há cerca de cinco palavras traduzidas como pecado no Novo Testamento. De sorte que estes resultam daquele e não o contrário como se presume. O pecado é o que somos e não apenas o que fazemos fora da vontade de Deus. Se o que somos, o somos fora da natureza de Deus, tudo o que realizamos é igualmente fora da vontade de Deus. Este é um enunciado simples, porém para vê-lo é necessário nascer de novo.
O velho homem é a parte moral e ética herdada da natureza do pecado, por isso, a referência é ao ‘velho homem’ e não ao homem velho. A questão não é cronológica, mas psíquica, sensorial e moral. Segundo o texto de Rm. 6, este velho homem foi com Cristo crucificado. O verbo crucificado está no tempo aoristo, porque indica um ato perfeito e consumado. Muitos vivem na crença errônea de que esta raiz do pecado fica obscurecida no crente até que este seja transferido para a presença de Cristo. Ora, sabemos que na presença de Deus não entra ninguém com o pecado. De sorte que não há salvação em pecado, mas há regenerados salvos em Cristo. Isto não quer dizer que a Palavra de Deus ensina a impecabilidade, mas quer dizer que Cristo veio ao mundo para levar cativo o cativeiro e, se não recebemos fé para crer nisso, certamente não experimentamos ainda o novo nascimento. Ou cremos que Cristo é suficiente e eficiente para retirar o pecado do homem, ou teremos de admitir que o Diabo obteve mais êxito em manter o pecado reinando na vida de alguém que foi salvo por Cristo. Isto nos parece heresia grosseira e negação da Palavra de Deus que é bendita eternamente. Geralmente a defesa de posições religiosas por meio de ataques religiosos caracteriza um espírito que ainda vive no velho homem, isto é, no pecado. Quem advoga o pecado é o que dele é escravo cf. Jo. 8:34 – “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado.”
O corpo do pecado é a herança adâmica de natureza material, animal ou corpórea. Este elemento permanece conosco até o dia em que morremos biologicamente e com ele, permanecem muitos atos, costumes e maneiras pecaminosas. É nesta porção do homem que Deus realiza uma obra permanente a fim de limpar e purificar a alma impregnada de vícios aprendidos do corpo do pecado que antes habitava no homem não-regenerado. É a esta parte do homem que Deus dispensa os imperativos acerca da necessidade de vigiar e orar para não cair em tentação. É a esta porção do nosso ser que Deus mantém anjos acampados para nos guardar. É a essa parte ainda enferma que Jesus afirma estar todos os dias até a consumação dos séculos. Isto porque Deus determinou em Seu Conselho salvar o homem integralmente e não apenas parcialmente. O propósito de Deus é criar a semelhança de Cristo por meio do Consolador [gr. parakleto] enviado para nos ensinar todas as coisas até que não necessitemos mais perguntar nada cf. Jo.16:23 – “Naquele dia nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo que tudo quanto pedirdes ao Pai, ele vo-lo concederá em meu nome.” O contexto que Jesus está afirmando estas esplendentes verdades é aquele anterior à Sua morte. Ele está mostrando que a morte é necessária para satisfazer a justiça do Pai. Mas, mostra que estabelecido o link, os regenerados teriam livre acesso ao Pai Celestial.
A questão crucial e que não dá margem ao entendimento do texto em termos de impecabilidade é a fé. Pois, se nos considerarmos como mortos, estamos crendo no que a Palavra de Deus diz: ‘uma vez por todas morreu para o pecado’. Não é nossa erudição e intelectualidade que estabelece esta verdade, mas a fé no que diz a Palavra de Deus, pois sem fé é impossível agradar a Deus. Por semelhante modo, a Palavra de Deus diz: ‘mas quanto a viver, vive para Deus’. Não são nossas afirmações religiosas que garantem a vida de Cristo, mas o fato de a Sua Palavra afirmar que ela é dada aos que nasceram de novo. Alguns religiosos estão prontos a “aceitar” que possuem a vida eterna, mas negam a morte para o pecado. Pensam que estas palavras são apenas auto-sugestões e não a verdade. Adulteram a Palavra de Deus para justificar posições denominacionais e religiosas. Assim, como eles não conseguem crer, e de fato, ninguém consegue mesmo, porque até para crer é necessário receber graça, preferem taxar o ensino da Palavra de heresia. É como naquela fábula de Esopo, atribuída a La Fontain, da raposa e das uvas: como a raposa não conseguia subir na videira, preferiu afirmar que as uvas estavam verdes.
Em Rm. 6:11 afirma que devemos nos considerar como mortos. Como? Como mortos, ora! Mortos para que? Para o pecado, ora! Pois a Palavra de Deus é una, e, se iluminada pelo Espírito Santo, as partes formam um todo completo e seguro. Semelhantemente em Cl. 3:1 afirma que já ressuscitamos com Cristo. Já o que? Ressuscitamos, ora! Com quem e porque? Com Cristo e porque a Palavra de Deus afirma. Então é só crer, pois a fé é exatamente pisar no firme fundamento do que ainda não chegou e ter a certeza daquilo que não se pode ver cf. Hb. 11:1. É andar no invisível! Esta graça têm-na apenas os nascidos do alto!
Gn. 1:21 e 24 – “Criou, pois, Deus os monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam, os quais as águas produziram abundantemente segundo as suas espécies; e toda ave que voa, segundo a sua espécie. E viu Deus que isso era bom. E disse Deus: Produza a terra seres viventes segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies. E assim foi.” Nos dois versos o original hebraico traz a palavra vivente como sendo alma ‘nefesh’. Então a vida, isto é, a animação que mantêm seres vivos é a alma. Esta vida que permite os seres se arrastarem por este mundo está no sangue cf. Lv. 17:11 – “Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que faz expiação, em virtude da vida.” Por isso, Jesus derramou o Seu precioso sangue para nos dar a vida que não procede da alma, mas da Vida d’Ele mesmo. A vida que o homem Jesus possuía no corpo se desfez para retomar a vida eterna por decreto do Pai cf. Jo. 10: 18 – “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho autoridade para a dar, e tenho autoridade para retomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai”
I Co. 15: 44 e 45 – “Semeia-se corpo animal, é ressuscitado corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual. Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante.” O texto grego original é ‘speiretai soma psikikon, egeiretai soma pneumatikon’ [gr. speiretai soma psikikon, egeiretai soma pneumatikon], isto é, ‘semeia-se corpo psíquico (almático), ressuscita copo espiritual (vivo segundo Deus)’. A palavra alma no grego neotestamentário é psíquico ou psiquê. Então, semelhantemente como o primeiro homem, Adão, se tornou alma vivente, o segundo homem e último Adão, Cristo, tornou-se espírito vivificante. A palavra grega para ‘vivificante’ é proveniente da vida ‘zoé’, isto é, vida eterna. Assim, somos mortos em Cristo como portadores da vida da alma e ressuscitamos juntamente com Ele em vida eterna, verdadeira e abundante. Tanto a vida da alma como a vida do espírito são eternas, mas apenas a vida de Cristo é espiritual. Por isso, muitos crentes vivem de derrota em derrota, pois querem combater a vida da alma com o poder da vida dela mesma e não com o poder do espírito vivificante em Cristo. É na cruz que Deus trata definitivamente com a vida da alma, destruindo-lhe o corpo do pecado na morte em Cristo. Muitos há que se aproximam da cruz apenas com base na substituição, mas quase sempre não vêem a inclusão, porque esta lhes retira os méritos e a justiça própria. Alguns, destes até abandonam vícios, costumes e comportamentos detestáveis, mas o corpo do pecado continua lá pronto para dar o bote. Não se combate o pecado com métodos e meios comportamentais, mas com a sua total aniquilação na morte de cruz pela fé cf. Hb. 9:26 – “... doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.” Os que acusam este ensino de impecabilidade necessitam ter as escamas dos olhos retiradas para crer apenas na Palavra de Deus.
Há crentes que sofrem muito, porque não acham descanso à semelhança de Caim cf. Gn. 4:7 – “Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar.” O proceder bem é o viver na dependência de Deus por graça, mas o proceder mal é viver pela força da vida da alma. É depender do esforço próprio, dos méritos e da justiça que provém do homem decaído. Entretanto, se lançarmos o corpo do pecado sobre o cordeiro que foi imolado antes da fundação do mundo, haverá domínio sobre o pecado. O texto acima foi dito a Caim que ofendido pela recusa à sua oferta do esforço próprio, matou o seu irmão Abel, cuja oferta fora feita com base no substituto, isto é, no cordeiro. Abel dominou o pecado por meio da dependência do substituto, mas Caim, não quis abrir mão do seu ego justo e meritoso.
O problema é que tudo o que provém da alma é inferior, animal e diabólico cf. Tg. 3: 13 a 15 – “Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é TERRENA, ANIMAL – da alma – e DIABÓLICA.” [destaques em caixa alta do autor humano deste estudo]. Terrena, animal, isto é, da alma e diabólica esta é a descrição inequívoca do apóstolo Tiago acerca da sabedoria proveniente da vida da alma. O bom procedimento a que alude o texto é da mesma natureza do proceder bem do texto de Gênesis 4:7. Quem procede bem segundo Cristo possui a sabedoria que vem do alto, mas os que se inclinam para os frutos da alma são ciumentos e facciosos e o pecado jaz à porta. O apóstolo aconselha que os tais não mintam contra a verdade, ou seja, não confiem nos sinais sensoriais da alma contra o que a Palavra de Deus afirma solenemente. Eles devem rogar ao Pai Celestial que os conduza a Cristo para serem crucificados e possam com Ele ressuscitar.
Os religiosos que preferem se chafurdar em suas teologias humanistas optam por fazer um arranjo e por produzir uma releitura segundo os seus desejos, a admitir que não perderam as suas vidas na cruz. Para estes ficam o conselho de Jesus a Paulo cf. At. 26:14 – “E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.” Acontece que inimigos da cruz diluem a graça de Deus em mentira por meio das suas obras de justiça e querem invadir os céus com suas justiças próprias. Passam por cima de toda a verdade da Palavra de Deus, contanto que prevaleçam seus princípios, suas normas, suas regras e seus preceitos religiosos e humanos.
Mt. 10: 38 e 39 – “E quem não toma a sua cruz e não segue após mim, não é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á; e quem perde sua vida por minha causa achá-la-á.” O que de fato Jesus está ensinando neste texto é o seguinte: “vocês devem negar a vida da alma, levá-la para a cruz e depois disso a achará em Mim.” Este é mais um caso da contabilidade celeste: quem acha perde, quem perde acha. Não foi por acaso que Jesus afirmou a Nicodemus: “necessário vos é nascer do alto”. De fato, importa renascer, pois a vida da alma é morta, mas a vida de Cristo é eternidade na presença de Deus. É bom saber que a expressão “por minha causa” determina a origem da causa em Jesus e não no homem. Isto quer dizer que quem perder a sua vida da alma na cruz, achá-la-á por causa da vida de Cristo. Ele, somente Ele possui a vida eterna e abundante.
3. Andar no Espírito.
Jo. 8: 12 – “De novo lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, pelo contrário terá a luz da vida.” Jesus está afirmando que Ele é a luz do cosmo e a luz da vida. Ele não apenas possui luz para dar, mas Ele mesmo é esta luz. Luz neste contexto não é o mero discernimento da verdade, mas a própria verdade. Ninguém, regenerado ou não pode andar no espírito se não receber esta luz que é Cristo. Muitos há que vivem da suposição de fé e de andar na luz. Entretanto, a fé e a luz que possuem, possuem-na de si mesmos e com base nas verdades que aprenderam, na esperança que desenvolveram e no conhecimento bíblico que buscaram. Todavia, Cristo não está presente em nada destas coisas e, como coisas, são boas, mas não são o próprio Cristo cf. Cl.2:9 e 10 – “Porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Também nele estais aperfeiçoados”. Se em Cristo habita toda a plenitude da divindade, então a luz, a verdade e tudo o mais estão n’Ele eternamente. E, se n’Ele fomos aperfeiçoados, o que temos de fato é a luz, a vida e a verdade que Ele é. Isto nos é revelado pela Palavra e se não formos incrédulos podemos andar no espírito. A parte que compete ao homem não é a produção disto ou daquilo, mas a recepção da graça que em Cristo há, a saber, a vida de d’Ele mesmo.
I Ts. 5:23 – “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” A santificação obtida em Cristo é plena e não por partes. Como alguém pode conservar-se integro e irrepreensível? Por si mesmo não pode! A não ser que Cristo seja a nossa luz e a nossa vida não podemos, porque a nossa natureza é contrária a esta situação. A não ser que recebamos a santidade de Cristo não estaremos conservados intactos na vinda de Cristo. A vida da alma não se comunica com Deus e a vida do corpo para nada serve a não ser para nos conduzir vivos biologicamente. Então, resta a vida do espírito cf. Jo. 6:63 – “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.” É no nosso espírito religado a Deus pelo novo nascimento que obtemos a vida que ilumina todo homem. Essa vida é Cristo e não apenas o que Ele fez na cruz por nós como supõem os arminianos.
Rm. 8:13 – “Mas se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis.” A vida da carne nos leva para a morte certa, mas a vida de Cristo em nosso espírito nos garante o domínio sobre o corpo e a alma. Há como se sabe três formas de vida no homem: a vida do corpo (vida biológica), a vida da alma (vida psíquica) e a vida espiritual (vida eterna). A vida de Cristo é a nossa vida espiritual cf. Cl. 3:4 – “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.” Se aplicarmos o princípio da dupla referência bíblica, este texto nos revela que Cristo é de fato a nossa vida e que, na medida que Ele se manifesta, nós também nos manifestamos com Ele. Isto tanto se refere à restauração final como ao momento da restauração pessoal no novo nascimento.
Jo. 3:6 – “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito, é espírito.” Só se pode andar no espírito os que do Espírito são nascidos. A carne produz coisas da carne invariavelmente, por isso o homem não pode realizar as boas obras, porque elas foram pré-estabelecidas por Deus de antemão. E, ainda que alguém pratique boas coisas, elas resultam da força da carne e não do espírito. A carnalidade, isto é, a vida da alma, produz sempre a auto-imagem ou a experiência pessoal e não a vida de Cristo. O conceito de auto-aceitação, auto-imagem, auto-estima, autoconfiança e auto-aceitação é mundano e almático cf. II Co. 5: 17 e 18 – “Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação.” Estando em Cristo não há mais lugar para o “eu” decaído, porque Cristo passa a ser o novo eu ressurrecto. Tudo provém de Deus e não há mais necessidade de se preocupar com auto-estima, pois Cristo é tudo em todos. Qualquer imagem construída com base na alma, isto é, na carne, é falsa e não procede do espírito. Neste ponto muitos religiosos não concordam, porque eles possuem uma visão torcida acerca do conceito de bem e de mal. Seus raciocínios os conduzem a uma dedução simplificada e humanística de bem e de mal. Entendem que tudo o que é bem só pode proceder de Deus e, consequentemente o homem que faz o bem está do lado de Deus e o que pratica o mal está do lado do Diabo. A Palavra de Deus deixa claro que bem e mal são conceitos relativos quando visto do ponto de vista de Deus, pois o que parece o bem ao homem, nem sempre o é segundo o parecer de Deus cf. Is. 45:7 – “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas.” Além disso, o bem e o mal que o homem conhece foram adquiridos à revelia de Deus no Éden.
Is. 41:24 – “Eis que vindes do nada, e a vossa obra do que nada é; abominação é quem vos escolhe.” Um homem regenerado tem certeza absoluta e consciente que o seu valor é menos do que nada. E, consequentemente a sua obra é nada. O homem que não experimenta o valor de ser nada são aqueles que se julgam dignos do amor e da estima de Deus, porque tomam por base o seu compromisso, a sua lealdade, sua obediência e a sua justiça. Neste ponto eles esperam que os outros homens os reconheçam e os tratem com respeito em função da sua posição na igreja e na sociedade. É neste ponto que começam enveredar pelo caminho da arrogância e da soberba. Neste caso fica a última parte do versículo acima: “...abominação é quem vos escolhe”. Eles se tornam pastores que se apascentam a si mesmos sem temor cf. Is. 56:11 – “E estes cães são gulosos, nunca se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, todos sem exceção.” Estes pastores não podem compreender mesmo nada, porque vivem para si mesmos uma vez que Cristo não é a vida deles e, portanto, não andam no espírito.
II Co. 5:16 – “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne, e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo.” O apóstolo Paulo percebeu que após o novo nascimento o regenerado almeja enxergar-se no espírito. Não se identifica mais com a carne. Esta condição não é resultante do almejar ou do querer do nascido do alto, mas da ação da graça que produz a santidade de Cristo nele. É uma ação de caráter essencialmente monérgico e soberana da vontade de Deus. Porque, aquele que começou a boa obra é certo que a acabará cf. Fl. 1:6 – “ ...tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus.” Alguns religiosos vivem claudicando entre o que foi Jesus, o homem histórico e o Cristo ressurrecto que realiza a obra perfeita. Como eles não conseguem ver Jesus fora da carne, não admitem que outros o vejam. A alma do homem é como uma câmera filmadora, ela enxerga a imagem que foca e, como tal, o homem religioso vê a imagem produzida pela alma e não pelo espírito. A superação desta condição não é da competência do homem, mas da misericórdia de Deus por meio da Sua maravilhosa graça. Ao homem compete apenas receber a verdade da Palavra de Deus como verdade de Deus. Deve-se recebê-la como o próprio Cristo cf. Jo. 14:6 e não como uma coisa.
Só é possível andar no espírito quando o texto de I Pd. 1:23 for verdadeiro para o homem religioso ou não religioso. Ora, se fomos regenerados pela semente incorruptível de Cristo, logo o que é gerado dela é incorruptível. Isto é, estamos falando de viver da fé e não de nos julgarmos perfeitos ou merecedores e, muito menos dignos de alguma coisa em nossos méritos. Mas, se você ainda espera que pode agradar a Deus sem a fé, por meio das obras de justiça, este ensino é realmente inaceitável. A Palavra de Deus ensina claramente que só se agrada a Deus por fé e não por obras. As obras seguem os que são regenerados como um processo natural dos que estão enquadrados no texto de II Co. 5:17.
Andar no espírito é andar na luz cf. I Jo. 1:7 – “Se, porém, andarmos na luz, como ele na luz está, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” Observa-se o lugar comum, tanto do que recebe, como do que dá é um só, a luz. O texto afirma que o sangue de Jesus purifica DE TODO PECADO e não apenas alguns pecados. O verbo está no presente contínuo, isto é, purifica sempre e não em alguns momentos. Isto não é impecabilidade, pois é a palavra de Deus e não conjecturas denominacionais, humanistas ou filosóficas. Assim, o que esta palavra ensina é que, se extinta a fonte do pecado, o manancial também é extinto. Tal extinção da ação do pecado na vida dos regenerados se faz por meio da santificação. Se todo regenerado se colocar na perspectiva de que a sua imagem é a imagem de Cristo e de que a sua semelhança é a semelhança de Cristo, não haverá mais imagem própria, justiça própria, obediência própria, lealdade própria, fidelidade própria, mas Cristo de fato é tudo em todos. Se Ele é tudo, quem pode ser mais além d’Ele?
É fundamental entender que a extinção de TODO PECADO inclui o pecado original, isto é, o errar o alvo e todos os atos pecaminosos dele decorrentes. Entretanto, não estamos livres da presença do pecado e da ação do pecado no mundo, pois este jaz no maligno. Mas os que advogam o pecado como justificativa para manter posições e julgamentos acerca de si mesmos e dos outros, continuarão dizendo que este ensino da inclusão na morte de Cristo é herético. Eles não podem mesmo afirmar diferente disto, porque é exatamente isto que as suas almas os permitem ver. Eles continuam vendo a si, ao Senhor Jesus e aos outros homens na carne, pela carne e para a carne.
Andar no espírito é andar na luz de Cristo, porque Ele mesmo é a vida e a luz dos homens cf. Jo. 1:4 – “... a vida estava nele e a vida era a luz dos homens.” Ele não só é a luz dos homens, mas não permite que os regenerados andem nas trevas, mas passam a ter a luz da vida, isto é, da Sua vida cf. Jo. 8:12 – “De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas; pelo contrário, terá a luz da vida.”
Então somos conduzidos pela luz que é Cristo e Sua Palavra, pela vida de Cristo e pelo sangue de Jesus que nos purifica de todo pecado. Todavia, não é um ato participativo, mas passivo, pois se alguém pudesse viver por conta própria desta forma, não necessitaria de Cristo. Assim, andamos no espírito apesar da carne e apesar da vida da alma que agora são tratadas pelo Espírito de Cristo cf. Rm. 8:9 – “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.”
Tg. 1:21 – “Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma.” Se fizermos a leitura do fim para o começo deste versículo verificaremos que, a nossa alma será tratada por causa da Palavra de Deus inoculada em nós, produzindo mansidão e permitindo que despojemos de toda impureza e acúmulo de maldade. O texto grego original não está na ordem e, muito menos na forma desta tradução arminiana.
A Cristo, pois honra, glória e majestade eternamente !!!
Apesar dos que nos criticam e nos insultam.
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